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Cheguei do céu em minha casa por essa noite. Cheguei e pus meus ossos para secar em uma cerca estendidos de par em par. Cheguei lá do alto meu bem, como quem cai em grandes campos gramados de norte a sul, como quem todos os dias morre para nascer no dia seguinte. Para quem se banha em cachoeiras geladas, cheias de peixes e flores entrelaçados lascivamente, com intenção de dolo e denúncia expontânea. Consumido pelo fogo e a febre dos que amam e voam e amam e riem e amam e choram e amam e caem e amam e sofrem e amam e olvidam e tanta vida, tanta vida.
Chego de céu para sonhar, para me deitar em nossa cama querida, para que me abras em chama a ferida e te cure, te complete, te enfie com afinco todo meu amor febril. Chego e retiro das veias todo o que nela houver, além do que se vê, além do que se quer fazer. Chego, e acendo a fogueira da casa, a fogueira da praia, a fogueira da mata, a fogueira do seu leito, a fogueira que mergulho pensando em ti. Pensando em como eu posso pensar em ti, e logo eu que só penso em quem lembro já existir, ou quem não abandono nem troco. O humano, o alguém.
Alguém, sempre eles, sempre esses tantos, tantos iguais, tantos parecidos, tantos tão tolos, tão vãs. Esses necessários quase sempre, esses que fazem a gente chorar até em inauguração de supermercados, final de novela, propaganda de cartão de crédito, festa de escola e outros tantos momentos impróprios. Esses, exatamente esses.
Volto para o céu azul de tuas paisagens, fazendas, vaquinha no pasto, estrada mal desenhada, casa caída, cata-piolho. Cadê você que nem sei. Cadê você? Você veio aqui e aquela estória do açúcar, da carteira perdida, do bar da esquina, do de todas as tristes esquinas sem bares, as de muros cegos, janelas esquecidas, final de festa de prima, tia de peito suado te dando apertos, bolo com fanta, coca sem gelo, coca e primo folgado, completamente sem noção.
Vou sim, mas não te deixo, virei lá de longe para ter a ti. Criança explicada que fala engraçado. Criança dormindo de olhos abertos, crianças no escuro da noite acordadas, crianças sem irmãos para poder brigar. Irmãos que não brigam. Brigas que não rimam, como esse poema, pretenso poema, pequeno sem rumo, poema vadio. Poema vazio, vazio piadas. Piadas de chefe, segunda-feira, chefe, terça-feira, chefe, quarta-chefe feira? Fuga talvez, vulgar, fugaz, lânguido, altivo, etéreo, eternamente.
Será que vai entender?
Será que vai reparar?
Que aproveite, de verdade.
Inventado por: Henrique Neto às 18:29 | Link |
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