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A festa I
A cidade estava em festa. A maior do ano. Dessas em que se utiliza o artigo definido no feminino quando se referem a ela só para ressaltar sua importância. Pelas ruas barracas vendiam santos de varios tamanhos e nomes, lembrancinhas e toda sorte de inutilidades. Nas calçadas, moças sentadas para ver passar os rapazes que vinham de fora em caravanas. Tudo indicava que aquela seria uma grande noite.
Gente bonita trajando suas melhores roupas, música ao vivo na rua, novidades a cada esquina. Na única semana em que "a festa" acontecia, fazia sentido viver naquele lugar. O colorido das barracas enfileiradas na rua principal formava um cordão de luzes, o vai e vem nervoso dos forasteiros, a música tocada nos parques de diversão, tudo exaltava os ânimos da cidade transfigurada.
Porém, lá pelas oito horas da noite, quando as moças ainda se ocupavam da arrumação dos seus cabelos e os rapazes perdiam longas horas escanhoando suas barbas, o inesperado aconteceu. Uma chuva torrencial e resoluta desabou sobre a cidade.
Nos primeiros minutos, todos tinham certeza que era só mais uma de verão, forte, porém rápida. Uma hora depois, percebendo que o volume da água só aumentava, a cidade foi tomada por um tímido desalento.
Os que tinham ido à missa lá mesmo ficaram ilhados dentro da igreja. Nas casas as pessoas revezavam-se na janela para ver se a chuva havia parado. Presos, com as roupas por usar penduradas na porta em cabides, não tinham nada a fazer além de esperar.
O barulho da água nos telhado era tão forte que não se podia ouvir nem mesmo o som da tv. O incômodo da convivência forçada começava a se mostrar. As casas cheias de parentes que não se viam o ano todo e que portanto, nada tinham a dizer uns para os outros, estavam impregnadas por uma atmosfera pesada. A chuva, totalmente inoportuna, colocava frente a frente aqueles que se evitavam até no olhar. O sobrinho não sabia o que dizer a velha tia; sentado na sala de frente a ela, sorria palidamente a cada vez que os seus olhares se cruzavam. Ela, por sua vez, vacilava sem lembrar o nome daquele rapazinho. Os primos, criados longe por desavenças de seus pais, se olhavam com certo desdém enquanto fingiam folhear uma revista.
E a chuva não parou. Três horas depois continuava tão forte quanto havia começado. As pessoas ensaiavam sair de casa em trajes comuns. O show na rua havia começado mesmo sem público para aplaudir.
A tempestade estampou no rosto de cada um a solidão característica dos dias de chuva. Resignados, alguns tomavam pinga pura para despistar o tempo. Outros, profundamente frustrados, foram dormir mais cedo. Uns poucos, menos afetados pelo convívio forçado, tentavam se lembrar dos nomes dos parentes mortos vasculhando a memória até onde conseguiam. Procuravam, sem sucesso, acertar quem era o homem de bigode fino na foto esverdeada pendurada na parede da sala. Por pouco não descobriram que aquele de olhar vazio era seu bisavô, e foi por causa dele que a festa havia começado e até hoje se repetia pelas eternas e solitárias noites de chuva.
Inventado por: Henrique Neto às 12:49 | Link |
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