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O mármore do inferno e os filmes de censura
Ter nascido no interior foi muito bom, a começar pela lembrança de acontecimentos que até hoje trago comigo. Em Espírito Santo, como em qualquer outra cidade pequena, os fatos demoravam tanto para acontecer que quando finalmente aconteciam viravam um evento. O cinema de Zé Onório no final de semana era um desses eventos aguardados com grande ansiedade.
Me lembro das inúmeras sessões que lá assisti. Eram filmes de faroeste, dos Trapalhões, Teixeirinha & Mary Terezinha, A Paixão de Cristo e tantos outros repetidos a exaustão. Porém, havia finais de semana em que a programação era adulta e naquela noite só passava "filme de censura", nome que nós, os boyzinhos, dávamos aos filmes pornôs.
Nessas noites, mesmo sabendo que minha não entrada era líquida e certa, ia para a porta do cinema ver os adultos entrar. Quando a censura era 18 anos, via entrar apressados - e até um pouco constrangido - os rapazes daquela época. Ficava então imaginando cá com meus botões: "Deus vai castigar esse aí por tamanho desrespeito". Havia ainda os filmes com censura 21 anos. Esses eu imaginava serem os mais pecaminosos e as pessoa que os assistissem, já estavam com a reserva garantida no mármore do inferno.
Meu mundo até então era dividido entre os cristãos bons e merecedores do reino dos céus e os famigerados e maus que assistiam a filmes pornôs com censura de 21 anos.
Passado todos esses anos, me pergunto se há espaço suficiente no inferno e em seu mármore para todos os expectadores dos "filmes de censura" que há no mundo.
Inventado por: Henrique Neto às 21:01 | Link |
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