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. pagodeiro de Emaús
Largou a escola depois de uma briga feia em casa. "Ícaro não é mais o mesmo", diz sua avó Carmina com os olhos rasos. O pai, arrasado, entrou para uma dessas associações de perdedores anônimos ou coisa parecida. Ícaro deixou tudo para trás e agora decidiu ser pagodeiro. Aos domingos faz com o Pinta e outros amigos, uma roda de samba num posto de gasolina lá em Emaús. Nada mais déclassé.
"Ícaro não é mais o mesmo", diz a tia Telma com razão. Sua ruína começou depois que entrou pra escola secundária e conheceu uns amiguinhos de procedência duvidosa. A mãe, maravilhada como dinheiro fácil que ganha na corretagem de imóveis, vive eternamente ocupada com suas plásticas e cremes, não tem tempo para ele e seu irmão mais novo (o atleta de cristo). Nem percebeu quando ele começou a beber, fumar, fez a primeira tatuagem e participar de festinhas onde havia uma só regra: "quem se comportar veste a roupa e vai embora".
Marina, Juliana e Karla foram as três últimas que Ícaro obrigou a provocar aborto. Marina também diz que "Ícaro não é mais o mesmo" e lembra emocionada quando eles passavam as tardes no cinema do shopping vendo filme e comendo pipoca com coca-cola.
Semana passada foi parar no hospital com uma crise de hipoglicemia alcóolica. A mãe jura que isso é coisa do tal Pinta, acredita que depois dessa amizade "Ícaro não é mais o mesmo", disse aos gritos no corredor do hospital.
Agora trancado em casa de castigo, sem as rodas de pagode em Emaús, bebida, mulheres e rimas fáceis, Ícaro resolveu pintar um quadro onde - segundo ele e sua presunção - está simbolizado numa figura completamente non sense, toda a família e seu histórico trágico-clichê. Quando não é isso, gasta seu tempo em coisas vãs, compondo pagodes rimados com amor, dor e flor ou escrevendo em seu diário na rede. Passou a se levar a sério depois que o tal Pinta disse que ele era um compositor de futuro.
Inventado por: Henrique Neto às 18:49 | Link |
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