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Jobi
Usava cabelo desgrenhado, dava aula de História na PUC, namorava a atriz da novela das oito, forçava um ar de cineasta em crise e há dois anos escrevia um poema de dois estrofes com seis linhas cada. Péssimo. Cheio de aliterações em v, redondilhas estéticas, hedonismo explícito e uma tentativa frustrada atolada no vácuo intelectual.
Saiu, pimpolho, e voltou com uma pastinha cuidadosamente providenciada para parecer casual. Fez uma pausa na conversa/flerte. Ar de constrangido. Pediu licença, se desculpou por antecipação, mas não deixou de ler 'ele', o poema ruim beirando o amor, flor e dor. Minutos depois: garçom uma cerveja. A atriz (de nome comum) enalteceu o fato de estarem reunidos numa choperia no Leblom, em plenas quatro horas da madrugada de uma terça, falando de poesia, literatura contemporânea e Mãe Menininha do Gantois.
Constrangimento: a doida disse que não gostou. O outro, numa super-hironia, aprovou e o do lado chegou em alta literatura. Resistência cultural, semiótica, casa do caralho, o Pedro, a Lia, amores belos, seres grandiosos e não sei mais o quê. Depois quase me deu carona. Cuidou de beijar o escritor. Esnobou a platéia com suas telas, salário da tv e teorias caóticas sobre obra boa de autor atropelável.
Cadê a cultura popular brasileira, as raízes, o Teatro Oficina, o sincretismo empobrecedor e a sua cobertura de frente pro cartão postal? Só encontrou jovens vazios, burros, burros, burros. Ar de estou out side, off-broadway and suck my ass.
Puxa como fui esnobado. Pérolas a esmo.
No fundo o que todo mundo quer é ser compreendido. Disse ela, conclusiva.
Inventado por: Henrique Neto às 23:51 | Link |
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