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Tarde
Despertado no meio da tarde, caminho aleatório por ruas distraídas. É sábado. Folhas flutuam outonais e as pessoas geladas dos bares bebem suas cervejas distraídas. A ventania, a minha nuca fria e os radinhos de pilhas nas portarias tocam para ninguém. Porteiros catatônicos executam suas tarefas autômatos e lá se vão portas que se abrem e se fecham eternamente.
Caminho nostálgico, assisto pessoas, passo discreto, mas elas são sempre ‘elas’, em Vitória, São Paulo, Tocos do Mogi, Rio, Natal, Espírito Santo, Vila Velha ou São Lourenço da Serra. Pessoas. Todas lindas e intrigantes – ou não. Do café que conforta à moça de saias cheia de segundas intenções. Do rapaz bombado e histérico à garçonete sem esperanças, a vida vive com seus imbatíveis dèjavus.
O peso da velhice precoce me amarra a todos os paradigmas (até aos que ainda não são meus) e a verossímil impressão de que não sou de parte alguma me move adiante.
Caminho por ruas incertas sem esperar qualquer porvir. Há tempos desisti da filosofia e os “quem sou, de onde vim, para onde vou?” são perguntas alheias. Tive de apagá-las do meu caderno de notas por estar muito ocupado em viver e como quem descobre o óbvio escancarado, resolvi viver um dia por dia para não complicar demais o complicável. Hoje Copacabana, amanhã a Boca do Lixo, mas sempre negociando comigo a clareza do meu querer.
E tudo pode e deve ser mais simples do que parece, e a angústia não fica em casa a sua espera, e a relatividade e suas armadilhas, e mais uma dúzia de frases feitas mas, disso tudo, o que realmente interessa é que aqui na Fornalha eles servem o melhor folheado de bacom com ameixa do mundo.
Inventado por: Henrique Neto às 17:20 | Link |
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