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A bombonière cafona
De quatro, enquanto ainda atendia ao último cliente do dia, Natasha olha a louça suja em cima da pia do pequeno conjugado onde vive. Sabia que tinha se esquecido de alguma coisa, não comprou desinfetante de pia.
Mais uns minutos e seu cliente deitará arfante e imundamente suado ao seu lado. Chorará. Dirá que não deveria ter feito aquilo, pois é casado e ama sua esposa. Que é um cachorro e etc. etc. etc.
Natasha desde pequena via o mundo de uma maneira muito particular. Ao contrário dos meninos de sua idade – uns trogloditas! – , era todo educadozinho, falava baixo e preferia brincar de casinha com as meninas. Uma moça, por assim dizer.
Hoje, do alto dos seus trinta e seis anos inconfessáveis, Natasha vive num conjugado minúsculo na avenida São João e sonha pelas frias madrugadas em poder voltar para casa mais cedo e dormir. São anos indo pro ponto batalhar uma grana de terça a domingo.
Natasha tem os braços queimados dos cigarros dos clientes. Tem uma tosse seca que nunca sara; uma caderneta de poupança que não chega a cinco mil; os dentes brancos a custa de constantes visitas ao dentista; cabelos compridos artificiais; joanetes e a certeza de que vai contrair o vírus a qualquer momento.
Natasha antes não beijava na boca, hoje isso não passa de uma questão de cédulas. Pagando bem acredita até nas histórias dos homens casados que todas as noites lhe procura se dizendo "héteros convictos".
Natasha perdeu a paciência, os sonhos e um anel cravado de pedras semipreciosas. Agora quer juntar uma grana para comprar uma casa no interior do Espírito Santo e ter uma vida digna de bicha velha. Natasha também quer ser mãe e vai adotar uma criança (nem se dá conta desses sonhos clichês que só os veados têm).
Terminou semana passada um namoro de três anos com um garotão do interior. Antes de ir embora ele lhe deu uma surra de cinta que arrancou pedaços, e levou embora uns dólares que achou dentro de uma bombonière cafona que ela guardava em cima de um móvel na sala.
Pensou em fazer um boletim de ocorrência, mas estava cansada demais para ir até à delegacia. Natasha odeia ter de sair de casa.
Se esqueceu de comprar o desinfetante de pia. Lembrou disso enquanto ainda estava de quatro atendendo ao último cliente do dia, e olhava a louça suja em cima da pia do pequeno conjugado onde vive.
Por estes dias, deu para achar que sua vida estava monótona demais.
Inventado por: Henrique Neto às 23:38 | Link |
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