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La passion
Sentada na beira da cama de casal, Sandra chora. Lembra do amor que teve, da juventude nem tão distante, dos momentos em que fora mulher, viagens de fim-de-semana, filhos criados e nesses dias, a solidão. Amava àquele homem com sofreguidão. Amava à distância, através das roupas sujas que lavava, da cama desfeita, da silhueta do corpo pela porta entreaberta, pelo filho agora homem. Amava, ainda que sozinha. Sabia que podia conseguir outros amores de passa-tempo, mas não queria nem podia.
Vivia a margem depois da separação. Andava por trás da rua, sorria a procura dele e nas festas em família onde ainda era considerada qual e tal, cantava espumas ao vento e ficava de olhos rasos. O amor tem desses clichês necessários.
Olhava a casa, planejada e construída em parcelas, a piscina, os meninos lindos e cheios de vida para viver e pensava, secretamente, que tudo voltaria a ser como antes – com fé em nossa senhora da piedade!
Numa noite, dessas bem normais, de cadeira na calçada e conversa frouxa, viu subindo a rua a mulher em quem pensara em todos os dias com ódio sincero. A destruidora do seu casamento, do seu riso. Deus sabe como as pessoas se transformam em nome de suas paixões...
Correu descalça em direção a vadia e com obstinação, deu-lhe na cara generosas tamancadas.
O povo aplaudia realizado enquanto Sandra chorava um choro nem alegre nem triste, mas redentor.
Inventado por: Henrique Neto às 19:10 | Link |
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