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Universo
Um dia de calor úmido e a cidade torna-se praticamente inabitável. Burocratas saem desesperados dos escritórios à procura da cerveja mais próxima, crianças se apressam em deixar a escola, velhos vão aos pronto-socorros em busca de sobrevida, o trânsito buzina mais alto e, meu amor espera em casa enquanto prepara a jantar. Ouve o rádio, cantorala um samba do Chico e pensa em quantos filhos me daria se possível fosse.
Uma mulher estéril tem frustração para encher o Maracanã. Não adianta usar argumentos prontos na tentativa de desviar a atenção do fato. Adoções altruístas, generosidade admirável e outras conversas paliativas, nada aplaca a tristeza da mulher estéril. Só elas são nostálgicas de si e Patrícia representava bem esse papel.
Na descoberta, quis morrer, me deixar, acabar o casamento e mudar para a Finlândia (tudo exatamente nessa ordem). Num segundo momento ria de sua tolice pueril e me fez jurar que a deixaria se bem quisesse. Mas Patrícia não entende que as coisas não são assim tão cartesianas quanto ela imagina. Entre a impossibilidade da prole, o conforto do não contraceptivo e a tranqüilidade de estarmos em casa ou com o pé no mundo sem nos preocupar com o porvir, ela chora pensando nos enxovais e chás de bebês que jamais fará.
Patrícia não trabalha, decidiu-se pelo capricho do lar, os cuidados comigo e a pré-disposição em satisfazer minhas vontades. Eu sou sua religião, seus ideais, sua maneira de ver e entender o mundo. Sem mim patrícia apenas está, nunca é.
O calor desse verão fora de época me deixa em bicas. Chego em casa com um vinho rotineiro, deixo o paletó sobre a cadeira, agarro o corpo falso-magro de patrícia por trás, beijo-lhe a nuca e penso que nada me falta, exceto Patrícia. Ela me morde o pescoço, se esfrega maliciosa, aperta os seus seios contra mim e me diz sem desmanchar o sorriso que comprou ótimos tomates em promoção para o molho do jantar.
Minha pele tem a memória do corpo de Patrícia e é com ela que sonho todas as noites depois do sexo apetitoso em que me alimento.
De noite, na hora de dormir, Patrícia se aninha entre minhas coxas e me faz lembrar que a rotina, o calor, o supermercado, os tomates e tudo que dela advém, faz parte de um universo cotidiano só nosso.
Inventado por: Henrique Neto às 20:33 | Link |
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