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O amor segundo RK
A visita foi marcada para amanhã. Será tensa e durará no máximo uma hora. Irá junto com o seu advogado. Marriene não irá para evitar constrangimentos ao menino. São mudanças demais na vida de uma mulher só, pensou RK enquanto traga seu cigarro junto a janela.
A fotografia a ser pintada não condiz com a imagem que RK vê no espelho a cada vez que se olha, mas é a real.
RK não é bonita, nem tem bom gosto. Usa cabelo tingido de loira falsa, sobrancelhas de taturanas negras, roupas de gosto duvidoso e umas bijuterias "que só por Deus", como bem dizem as amigas. É histérica, precisa se mostrar e ser aceita, por isso não divide a cena com ninguém. Para se curar fez psicologia. Passou a faculdade inteira na base da cola, mas até isso ela nega. Nunca clinicou porque sabe que não tem capacidade para tal. Ah se Freud soubesse.
Dia desses, sem mais poder esconder o que pululava aos olhos da platéia, RK largou o marido, o filho e uma casa modesta comprada em duzentas e quarenta prestações lá na periferia, por um amor intranqüilo.
[Pausa para um comentário maldoso e pouco edificante].
Imaginem uma balzaca acanalhada namorando uma ninfeta de vinte e um.
Imaginou?
[Voltemos aos detalhes sórdidos dessa trama mezzo folhetinesca].
RK estava namorando com Marriene. Sério. Sentia um frissón só de encontrá-la. Para Marriene tudo aquilo não passava de uma aventura juvenil, já para RK, era o limiar de uma nova era. Assim mesmo, com chavões bíblicos e tudo.
Essa história se acaba no momento em que Pierre, chefe de RK, encontrar-se com ela e Marriene, felizes e lascivas num hotel do Guarujá. E por lasciva, leia-se: "dando um beijo de língua" em pleno restaurante familiar. Desse dia em diante, sem dizer palavra alguma, Pierre, RK e Marriene perceberão que o mundo está mesmo mudado, e já não se pode mais esperar encontrar nada convencional. Nem mesmo manteiga Aviação na embalagem de lata.
Inventado por: Henrique Neto às 00:36 | Link |
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