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Os caracóis de Carlos
As verdades nem sempre revelam-se com a facilidade esperada. Quase nunca. Ainda mais quando estamos viciados em notar culpa em quem pensamos ser os culpados, ou apontar erros de quem julgamos previamente errados.
Carlos era o quarto filho de uma família de dez irmãos. Usava vasta cabeleira, bem à moda dos anos setenta. Cabelos cacheados eram apreciados pelas moças que já se engraçavam para namorar.
O xampu de Carlos
Antigamente ia-se à bodega para comprar o essencial, produtos de higiene e beleza limitavam-se a um mero Leite de Rosas. "Para ser feliz!", dizia a mãe previdente.
Carlos, zeloso, guardava seu xampu na segunda gaveta do armário em baixo de todas as roupas. Tirando esse cuidado, vivia tranqüilo com seus caracóis cantados em prosa e verso pelo Rei.
Telma, a irmã caçula, não era propriamente um exemplo de criança comportada. Sempre aprontava das suas e quando contrariada, dizem as irmãs mais velhas, rodopiava no chão fazendo pirraça. As crianças e suas opiniões próprias.
O desastre
Numa tarde após a sesta, o xampu de Carlos apareceu derramado dentro da gaveta. Vocês nem imaginam a brabeza de um cabra precursor do MMA – Movimento Metrossexual do Agreste –, ao ver sua principal ferramenta de manutenção capilar desperdiçada.
O mundo caiu. Hipóteses foram levantados, palavras duras proferidas até que a mãe sabiamente sentenciou:
– Ou o autor de tal arte faz uma denúncia expontânea, ou vou lá na rua de cima na casa da mulher que vê a cara das pessoas no fundo da bacia.
A vidente
Havia uma senhora, não sei se na vida prática ou só na cabeça da mãe astuta, que dizia adivinhar quem cometeu delitos de ordens diversas com uma simpatia no mínimo curiosa: em uma bacia com água, após entoar umas rezas esquisitas, aparecia o rosto do autor do ato reclamado por quem fosse consultá-la.
Telma, ciente das verdades que poderiam 'emergir' dessa feitiçaria branca, tratou de se entregar evitando assim, maiores trabalhos para as partes envolvidas.
O desfecho de mais esse caso familiar só vai acontecer lá para o mês que vem. É que Sônia, minha assessora para assuntos da memória da família, está de férias lá na terra santa e eu já pelejei, mas não consegui me lembrar se Telma levou ou não uma pisa.
Inventado por: Henrique Neto às 00:26 | Link |
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