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De Como Nascem os Bebês ou Da Pouca Prática do Cronista Nas Atividades Oficiosas
Sempre fui um fracasso.
Em tudo o que faço sou um derrotista nato. Taí Ícaro que não me deixa mentir.
Era daquelas crianças que iam à bodega comprar o que a mãe mandava e trazia sal, quando o pedido era açúcar, café quando o certo era sal, e outras tantas combinações improváveis nessa mesma linha. Eram tantas as braçadas que minha família já tinha uma certeza quanto o meu futuro:
– Esse menino não vai dar para nada. Fraco, leso e burro do jeito que é, não vai nunca chegar a doutor.
Eles estavam certos.
Minhas frustradas experiências profissionais começaram ainda cedo, quando minha irmã do meio engatou um namoro sério com um rapaz lá da Terra Santa (Espíto Santo para os íntimos). O cabra vivia pras bandas de Natal e vinha de moto pro interior.
– Não pode ser boa gente. Onde já se viu andar montado numa moto? – dizia Creuzinha, uma tia gorda e solteirona – claro! -.
Se a irmã queria dar uma volta na praça, tinha de me levar a tiracolo, se ia tomar banho num açude (pânico!), lá tinha de ir eu para ”pastorar” os dois, como me dizia mamãe. Nem na missa do domingo meus serviços eram dispensados.
[Deixe eu fazer aqui uma parte].
Pense num serviço de derrotista esse negócio de pastorar namoro dos outros!
Não tem futuro nem para os pastorados nem para o pastorador. Sem contar que eu, o contratado para essa tarefa inglória, acabei virando um agente duplo: para mamãe dizia ser o leão de chácara que ela tanto precisava, para a irmã, por qualquer dez centavos eu ia comprar confeito e chiclete bem longe deles dois, que eu não era besta nem nada.
[Voltando].
Então meu serviço de pastorador foi tão mal prestado, que findou num tal de Ícaro, um 'mago veio' que arrebata corações virginais lá pras bandas de Nova Parnamirim (ele é àquele bonitão das tapiocas que toca pagode lá em Emaús, lembra?).
Pois bem. Minha irmã, que na época já era noiva, casou grávida, o que gerou um grande basfond na família dos Henriques – Lima na verdade, mas o povo chama a gente assim – e o tal do cunhado viu tocha quando foi pedir a mão da moça em casamento. É que ela tinha mais seis trogloditas, digo, irmãos nada chegados num diálogo (esse bicho tava lascado!). Um deles, para você ter idéia, tinha carregado uma moça filha de um fazendeiro da região, só porque ele não abençoava o namoro. Mas isso já é outra crônica.
A mão da irmã foi dada, o que pode até parecer redundância numa situação dessas, mas só você vivendo no interior para entender o que esse ritual significa, né tia Lita?
Passada essa minha primeira malfadada experiência profissional, salvados os mortos e feridos (não ria, por favor), a irmã mais nova também começou a namorar sério. Essa, mais pratica, tratou logo de advertir à mãe:
– Não quero ninguém me pastorando. Vocês viram no que é que deu esse marmota, né?
Uma acanalhação aos serviços parcamente prestados por mim.
Cansado de escutar àquela música do grande Nelson, tentei por esses dias dar uma guinada em minha carreira profissional: comecei a ler o futuro na borra do café. Os longos anos de estrada que tenho ao lado dessa bebida, me deram a ilusão de se tratar de uma tarefa fácil. Mais uma vez me enganei. Ora, se não consigo rimar ”ré com crê” no presente, foi demais achar que o saberia fazer no futuro.
Além de tantas empreitadas malfadadas e para aumentar os meus ais, o tal do Ícaro – obra-prima de minha pouca prática profissional – ainda é insolente quando troca meio dedo de prosa comigo no MSN, e me ameaça mandando fotos de minha infância por eMail.
Como diz Chico Tapia, um velho sábio lá de Espíto Santo:
– Esse mundão veio cheio de bacurau tá mesmo perto de se acabar, visse!.
Inventado por: Henrique Neto às 01:46 | Link |
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