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Arrego
Foi numa roda de samba que vi você dançar. Você não estava, mas sua falta se avolumou de tal maneira, que quase tocava a presença. Aqueles homens antiqüíssimos em volta de uma mesa, aquela cantoria em desuso e todas as reverências à deusa negra, fizeram daquele lugar um terreiro de luxo.
Eu pisava o chão molhado, eu ouvia as batidas do surdo e via você desfilar em todas as mulheres que sambavam. Você era todas as outras. As morenas, ruivas, neguinhas, branquinhas, as da fila do banheiro, todas elas agora tinham seus olhos de azeviche.
Eu bem tentei te esquecer, mas minha vontade nessas horas arrega. Estava difícil conseguir e só piorou quando baixou a Clara. A nega do vocal rodou cantando aquela feira que você tanto gosta, depois baixou o nego Jorge e a galera gritava, em meio aos passos desastrados dos rapazes dessa cidade.
Faltou você no terreiro, nega. Eu tinha essa certeza. E olha que te digo de artigo de luxo em minha vida. Faltou. Não sei (em verdade sei) por quais cercanias tu andavas, mas a sombra leve da tua lembrança estava ao meu lado, me pastorando de canto de olho, pairando sobre as idéias cevadas que me acompanhavam.
E chuva caiu, velha se embebedou, a nega sorriu, o povo se animou e bem antes do galo cantar, voltei para casa em companhia de não sei bem quem.
Já com o sol bem alto e a embriagues me amarrando à cama, lembrei da saudade que você fez, do samba que você não viu, da dança que você deixou, e do outro dia chuvoso quando te conheci.
Inventado por: Henrique Neto às 12:19 | Link |
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