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Samba lento para um carnaval antigo
Era um samba tristíssimo de andamento lento. A letra – de uma delicadeza há muito perdida – dizia de um beijo na boca seguido de morte passional. A batida do surdo ecoava pelas ruas da cidade, na sala de estar, entre os livros na estante, pela louça escorrendo na pia e nos olhos de azeviche da morena.
Dummm... Dummm... Dummm...
O carnaval, uma festa bem triste, se anunciava ao som de sambas antigos pelos amplificadores nos postes, num programa vespertino da prefeitura. Uma amiga confessou outro dia, que no fundo acha bem deprimente essa alegria rasgada em máscaras, bailes e panos de guardar confetes. O carnaval é um samba que cai, o bloco é um samba que cai, o folião é um samba que cai. Samba de breque, talvez.
De novo o surdo. Segure a mesma cadência, por favor.
Ontem, almoçando na casa de amigos, o poeta disse que "tristeza não tem fim, felicidade sim". Essa foi a senha para me lembrar de um carnaval secular, onde vi passar o bloco mais triste do mundo: eram uns papangus de máscaras horríveis, que dançavam ao som de uma cadência de beleza duvidosa, e pediam trocados a quem deles se ocupava.
Desse dia para frente, passei a duvidar se a festa da carne existia (em si mesma), ou se era só uma tentativa falsa de alegria, como os 'grandiosos espetáculos' anunciados por um circo roto que, todos os anos acampava lá pelas bandas do rio de Jacu.
Inventado por: Henrique Neto às 12:03 | Link |
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