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Impressões
Eu estive no inferno e não gostei de lá. Ao contrário do que dizem, lá não é esse lugar animado e cheio de festinhas desavergonhadas. O Demônio, anfitrião execrável, tem ares de padrinho gordo e bonachão, faz perguntas genéricas, finge atenção e te lança olhares de piedade velada. Lá, a luxúria é deixada na chapelaria à entrada, e na rádio interna toca Zezé di Camargo & Luciano sem parar.
O maior problema do inferno, é que tudo parece absurdamente normal. As meninas usam roupas de grife, fazem luzes, se depilam, lêem revistas de fofocas e usam bolsas em par com o cinto. Lá, elas te medem pelo carro, fazem perguntas oblíquas sobre a renda, especulam o tamanho do seu telefone celular e acham tudo "superrr bacana". No inferno todos aprendem ser genéricos, e dessa forma, todo mundo entra no processo de pasteurização, onde há apenas três modelos aceitáveis. É lá, onde a pequenice humana encontra remanso.
Perdi dias e dias perambulando pelas salas que há no castelo profundo e lá, participei das rodas por onde os medalhões sorriem em flashs, balzacas testam o limite de elasticidade da pele, e as moças de família quatrocentona, praticam abortos à galope. Era nessas salas-de-jantar que os homens diziam dos times de futebol, elencavam os carros estacionados em suas garagens, faziam ranking das mulheres que "já pegaram" e assim - com toda a disfarçatês que a santa dissimulação permite - praticam o amor entre semelhantes.
É, eu estive lá. E vi que do lado de fora, os que se imaginavam preteridos do convite, tinham nos olhos a fome de quem deseja. A zoada, os gritos histéricos e todo o ar denso e festivo, iludiam os passantes que julgavam tratar-se de farra ou coisa boa. Mal sabiam que na casa do Príncipe, tudo era véspera de um imensurável genocídio, e que da porta para dentro, não existiam inocentes. Apenas aqueles, que tal como Sherazade, protelavam a noite funesta.
Inventado por: Henrique Neto às 22:12 | Link |
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