|
Nós
Na desordem de nossa cama a menina chora. Ela, tão infinitamente só, teme o porvir. É que o mundo do seu jeito indócil, resolveu exigir dela tudo de uma só vez. Tento acalmá-la, busco força não sei onde, ensaio uma saída honrosa, invento umas piadas fracas, tudo para salvar a morena que agora se adonou dos meus pensamentos.
Foi numa festa tomando cerveja quase gelada, notei haver alguém que, dias depois, confirmando minha desconfiança, desfilaria de calcinha tranquila pela minha casa. Alguém que, por praticar o hábito malsã de verbalizar o que sente, enfrentou muitas feitas pela vida.
Um homem ainda que desprovido de sentimentalidades, desmonta ante a mulher que chora. Não fomos disciplinados para arrefecer a tristeza da bela companheira. Queria eu, neguinha, saber como agir para levar para bem longe o que te deixa triste. Quisera.
Eu, acostumado as maiores tragédias, não dou conta de um choro mínimo. Me preocupa te ver choramingar durante o sono, desperta a curiosidade em saber o que te atormenta. Ver você assim, tão cheia de medos, ciosa dos pequenos dramas cotidianos me faz ficar mais pesado. Eu, minha flor de laranjeira, um jagunço renovado e perdido nessa cidade apressada. Quisera eu saber te livrar dos dissabores dessa vida. Como queria. Mas que posso eu, um menino disfarçado de homem, que ainda fica bestificado ao ver o belo nos pequenos gestos dessa vidinha cheia de hiatos?
Inventado por: Henrique Neto às 23:44 | Link |
|